Reconstituição das páginas da edição angolana do primeiro caderno do semanário Sol de 12 de Fevereiro de 2010 que por cá andam esquivas, segundo afamado especialista estrangeiro em arqueologia industrial (que pediu anonimato: diz que não gosta de chocos com tinta)
A PARÁBOLA DO JUIZ E DA JORNALISTA
- A JORNALISTA O sôtor não acha que o primeiro valor de uma sociedade democrática é a liberdade de expressão?
- O JUIZ (do Norte) Não.
- A JORNALISTA ... a liberdade de pensamento?
- O JUIZ (do Norte) Não.
- A JORNALISTA ...a liberdade de opinião?
- O JUIZ (do Norte)
Não. Não. O primeiro valor é o direito à vida. E deixemo-nos de coisas, porque eu já ouvi dizer... que é... O único valor, o primeiro valor, o único valor que não tem limitações, em algumas sociedades, porque tem, por exemplo, nos sítios onde há pena de morte, é o direito à vida e à integridade física...
O tipo ser arrogante e oportunista, é como o outro: paciência, sinais dos tempos... Pensavam os meus amigos que os tachos, as chulices, os canudos porque sim, as universidades da treta, o carreirismo, as exorbitânciazinhas dos poderezinhos, eram só para os tugas sem responsabilidades políticas - ou que eram só para aqueles tais de yuppies lá dos oitentas? Ná! Somos todos culpados - ou vivemos numa caixa de cartão na Arcada do Terreiro do Paço (o que , também, não nos redime, necessariamente - podemos, então, ser apenas yuppies incompetentes). Portanto, lá isso da arrogância ignorante de um carreiristazito bem sucedido, a transpirar cagança por todos os poros, já não me incomoda. O que é grave é o golpe de Estado. Sim, a subversão do regime: então não é que o medíocre personagem se prepara para se perpetuar no poder, quer a gente queira ou não queira? Ou, nas palavras do coiso:
"Estou aqui para dizer, aos Senhores jornalistas e aos Portugueses, que não é desta forma que me vencem."
Então se não é desta, ou de qualquer outra forma, que os portugueses o vencem, como é que o gajo sai de lá? Não é a expressão da vontade dos portugueses a utopia da democracia nacional? Se não é a vontade dos cidadãos de Portugal que tira os políticos eleitos dos respectivos cargos onde esses mesmos cidadãos os puseram, quem é que os tira de lá? E, reparem bem, a coisa não diz que é este ou aquele português, estes ou aqueles grupos da sociedade tuga. Não: diz "os portugueses". São os portugueses que não a "vencem" (à coisa), pelo menos "desta forma" - bonita arrogância esta, em que um tipo determina as "formas" pelas quais pode ou não ser "venc[ido]". Imaginemos que o tipo perde as eleições: já o estou mesmo a ver, que não, que não sai, que os portugueses lhe tiraram o rico tachinho, onde (alegadamente!) comia ele, a família e os amiguinhos todos, por via de negras campanhas e que assim não, assim não sai. Vem aí a ditadura - e, agora, deixará de ser molemente dissimulada. Vejam vocês mesmos, confrontando o vídeo anexo. E, depois, não digam que eu não vos avisei.
(Ocorreu-me, assim de repente, como uma insinuação incómoda, que o socrático cretino pode estar a querer dizer outra coisa, espantosamente honesta, desta vez, mas dissimulada (socríptica?): que não serão nem os "jornalistas" (portugueses), nem os "portugueses" que "desta forma" o "vencem" - porque serão os ingleses, as suas cartas rogatórias e, porventura, os tablóides, quando não um couraçado no Tejo... Às armas!)
It is the primary obligation of the [israeli] government to protect Jewish lives. Israel is first and foremost a JEWISH democratic State. It is NOT a non-sectarian, democratic country like the United States. As such, it is absurd for anyone other than Jews to be citizens in the first place! That is why Israel MUST revamp its Constitution making Israel unequivocally a JEWISH State… with NO possibility that any other group will ever become the majority. It is insane to have enemies of the Jewish people living anywhere within its boundaries. So how does Israel put a stop to the explosive Israeli Arab population growth? The same way one puts a stop to a growing cancer… REMOVE IT.
We, members of the People's Council, representatives of the Jewish Community of Eretz-Israel and of the Zionist Movement, are here assembled on the day of the termination of the British Mandate over Eretz-Israel and, by virtue of our natural and historic right and on the strength of the resolution of the United Nations General Assembly, hereby declare the establishment of a Jewish state in Eretz-Israel, to be known as the State of Israel.
Rafael Bordalo Pinheiro, A Parodia, nº 95, 6 de Novembro de 1901, página 360
NO PAÍS DOS SACANAS
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas? Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas, e todos estão contentes de se saberem sacanas. Não há mesmo melhor do que uma sacanice para fazer funcionar fraternalmente a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais, para além das rivalidades, invejas e mesquinharias em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país, a ver se se convencem e puxam para cima as calças? Para quê, se toda a gente sabe que só asnos, ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora. Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice, porque no país dos sacanas, ninguém pode entender que a nobreza, a dignidade, a independência, a justiça, a bondade, etc., etc., sejam outra coisa que não patifaria de sacanas refinados a um ponto que os mais não são capazes de atingir. No país dos sacanas, ser sacana e meio? Não, que toda a gente já é pelo menos dois. Como ser-se então nesse país? Não ser-se? Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia. Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
10/10/1973
Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Lisboa, Edições 70, s.d. [1989], p. 136